António Macedo sempre

António Macedo sempre

Algum dia o António Macedo haveria de sair da rádio, porque nada nem ninguém pode durar para sempre. Mas sempre achei que o Macedo ia morrer a fazer rádio. E ainda acho.

Não sei se era inevitável, sei que é lamentável. Durante 15 anos, ele foi a voz (e portanto o rosto) das manhãs da Antena 1. Todos os dias, era ele quem acordava o país, mas fez mais do que isso: ajudou a renovar a imagem da rádio que liga Portugal, que está hoje mais próxima dos portugueses muito também graças ao trabalho de António Macedo.

Agora, que cessou funções na rádio pública, ficamos todos um pouco mais pobres: a rádio e os ouvintes, em primeiro lugar, mas também os camaradas que tinham(os) o privilégio de trabalhar e aprender com ele. A decisão de sair foi aceite pelo próprio, e só nos resta viver com ela, mas isso não pode sombrear tudo o que o Macedo já deu à rádio.

Conheço e sou amigo-quase-irmão do António Macedo há uns 40 anos. Entre jornais e rádios e tudo, levo de trabalho com ele, ou ao lado dele, mais de metade da minha vida profissional. Vivemos em conjunto alguns sonhos e não menos desilusões, partilhámos muitas noites de afã e de boémia – quando era da alquimia de ambas que se faziam as notícias –, testemunhámos coisas fantásticas e histórias terríveis.

A nossa amizade dispensa qualificativos e vem do tempo em que a liberdade era uma menina e o jornalismo se fazia com paixão. Eu era um jovem penógrafo em princípio de vida, e ele, jovem mais velho vindo de Luanda uns poucos anos antes, era já um repórter com nome na praça – e na rádio. Pouco tempo depois, quis o destino que partilhássemos a mesma redacção, num jornal onde demos corpo e alma às ideias mais doidas. O jornal era o Se7e e fez-se uma lenda.

Foram dias e noites em que se trabalhava muito e com gosto, sem nunca olhar para o relógio. Tempos muitas vezes alucinados, mas ainda assim felizes. Conhecemos gente fantástica, daquela com que apetece partilhar o pão e o vinho da vida. E também suportámos os mesmos patifes, desses que existem em todo o lado e que são como os anopluros: não fazem nada de útil, mas incomodam que se farta.

Depois, andámos por outros sítios, nem sempre coincidentes. Mudámos de vidas e de trabalhos. Novos desafios, novas ilusões, trambolhões, deambulações. Voltas e revoltas, enfim, que um do outro continuámos a acompanhar de perto. E, porque é teimoso, o destino voltou anos depois a juntar-nos num mesmo lugar-de-ofício. Na rádio, como era inevitável que fosse. E outra vez demos por nós a pensar juntos e a fazer coisas. Até algumas que não tínhamos de fazer, apenas porque as queríamos fazer. Ou simplesmente porque sim.

Porque é assim que se trabalha com o António Macedo. Ele é sempre o mais jovem, o primeiro a avançar, o que planifica e metodiza e faz e empurra. Mas também o que melhor e mais rapidamente resolve no momento, grita, suaviza, incentiva, ri. E que, em antena, conjuga como poucos um raro dom de comunicabilidade com o faro apurado do repórter atento que foi sempre.

Em distintos lugares e situações, fui testemunha de como a relação rádio/ouvinte passava muito por ele. Pela voz e pelo resto, já que uma voz não se avalia apenas pelas características mais ou menos eufónicas do falante, mas por tudo aquilo que está por trás – e para além – dela. Uma voz pode revelar cultura ou insipiência, sensibilidade ou indiferença, carnalidade ou pudor. Ou pode não revelar nada, que é o pior de tudo.

A voz do Macedo revelou-me muitos dos segredos da rádio e do mundo, e vai continuar a fazê-lo, não duvido, onde quer que seja. Com o desmesurado rigor de quem é capaz de virar a lua por conta de um detalhe, persistência felina e gargalhada solta, muito saber acumulado. Pouca gente conhece tão minuciosamente os segredos deste ofício como ele, porque pouca gente ama de modo tão definitivo esta coisa mágica que é a arte efémera da rádio.

A paixão, lá está: viver sem ela é uma perda de tempo, e o Macedo gosta de passar tempo, mas não tem tempo a perder.
Algum dia o António Macedo haveria de sair da rádio, sim. A rádio, essa, é que não pode sair dele. Que continua vivo, livre e de maus costumes. Felizmente.

Publicado em 15.Jun.2018