A insistir desde 1958

A insistir desde 1958

Por regra, interessam-me mais as obras (e as ideias) do que as vidas de cada um. Talvez por isso não sou muito dado à escrita (auto) biográfica, sabendo embora que parte substancial da minha história pessoal pode ser contada a partir do meu trabalho, e que este é essencialmente o ofício de escrever – em público, e para um público. Mas não sou talhado para contemplação do umbigo (do meu, pelo menos) e menos ainda para a exposição de intimidades.

Certamente também por isso, não tenho paciência para escritores que se crêem o centro de tudo quanto existe – quando as mais das vezes não sabem nada do que existe e se limitam a penejar as respectivas vidinhas, por não terem vida para mais. Acresce que o treino profissional de prosear sobre (e para) os outros dificulta ainda mais qualquer tentativa de dissertar sobre mim próprio, ainda que essencialmente em questões factuais como é suposto serem textos como este.

Em contrapartida, tenho também a noção de que o trabalho público gera a curiosidade pública. E, sem vaidade nem modéstia, entendo como natural que alguns dos leitores, ouvintes ou telespectadores que tenha alcançado ao longo destes já 40 anos de vida pública ou semi-pública (chamemos-lhe assim para simplificar) sintam alguma curiosidade sobre o(s) autor(es) daquilo que lêem: quem é, de onde vem, por onde andou, como é que se meteu nisto em vez de seguir uma carreira política ou circense – são perguntas, legítimas, que podem fazer-se. Mais a mais tendo em conta, no caso presente, que me tenho aventurado por vários universos distintos, ou talvez nem tanto: os livros, os jornais, a rádio, a televisão, as canções, a internet – diferentes meios para atingir os mesmos fins?

Assim, nos próximos tempos (e até noutros) tentarei contar o que houver para contar, em prosa corrida e de preferência sintética, como é suposto ter-me habituado por dever de ofício. Vale o que vale, e não é com certeza uma visão isenta do caminho andado. Mas afinal todos somos o que somos, isto é: somos o que julgamos ser, o que os outros nos acham e o que efectivamente somos – sendo que nem sempre ou quase nunca estes três vectores coincidem no resultado. Mas arrisquemos. Afinal, o risco é, de facto, a minha profissão.

Bem vistas as coisas, poderia talvez resumir a minha história a, literalmente, meia dúzia de palavras. Tipo: «Nasceu em 1958 e ainda não morreu». Estaria neste caso a parafrasear o (enorme) poeta Alberto Pimenta e então, como ele, diria também: «Continuo à procura de um triângulo de quatro lados. É difícil de encontrar, mas não desisto. A traços largos, não desisto.»

E pronto. É mais ou menos isto.

Nasci em Ílhavo, na Primavera de 1958, filho de Dona Conceição e de João do Rio. Era quinta-feira, diz o calendário, mas disso não me lembro. Porém, lembro-me do casarão onde nasci, na esquina da Rua da Capela com a Rua Direita. A capela já lá não estava, e a outra rua tinha ganho nome oficial de arcebispo: Pereira Bilhano, de quem pouco mais sei para lá de que era José António de nome próprio e foi chefe da arquidiocese de Évora em tempos que já lá vão. Certo é que a rua Direita era e Direita continuou a ser, e ainda hoje é assim conhecida e chamada. Quanto ao antístite, teve o destino comum aos prelados locais: ficou-se pela lápide, e não diga que vai daqui.

A rua, as ruas (estas e outras) eram o jardim-escola desse tempo. Brincava-se e crescia-se nelas, num desafogo contrastante com o abafamento do país. Tive, por isso, aquilo a que soe chamar-se uma infância normal – até talvez feliz – ainda que o conceito de “normalidade” não faça parte das percepções de uma criança, para quem “normal” é tudo o que acontece em seu redor. Mas foi. Com os prazeres e os medos comuns, da idade e da época: o país era cinzento e (ainda mais) pequenino, Salazar e a Madrigreja mantinham as almas em descanso – sem grande esforço, que o povo era mansinho. Havia quem não se conformasse – há sempre, valha-nos isso – e para dar conta desses estavam de serviço os zeladores da ordem e dos bons costumes, corporizados na legião de pides e censores de que o país dispunha.

Aos 5 anos, a prisão do Pai ficou gravada em flashes na memória. Foi detenção breve, coisa de poucas semanas, mas já se sabe que o tempo tende a expandir-se quando somos crianças. Por sorte, no que à clandestinagem de João do Rio dizia respeito, a PIDE só sabia da missa a metade, o que encurtou com certeza a estada dele no retiro de Caxias. Não sei se por isso, mas não guardo a lembrança desse episódio como um trauma de infância, pelo contrário: é quase como que um momento inicial, aquele em que pela primeira vez tive a noção, não o sabendo, do sentido da Liberdade (ou mais propriamente da falta dela).

Era assim a nossa vida, e foi assim toda a minha infância e juventude remota. A escola dividia-se em meninos de um lado e meninas do outro. Não sei se vem daí a minha curiosidade pelo impropriamente chamado sexo oposto. Por causa dela (da curiosidade adolescente) passei um ano ou dois pelo coro (misto) da igreja local, com outros moinantes mais ou menos afinados, no tom e no toque. Foram tempos engraçados, que não me levaram ao céu, nem me puseram os pés na terra. Já falei disso noutras prosas que andam por aí.

Era assim, pois, a nossa vida. Uma pasmaceira, enfim – apesar das noites-de-ensaio-de-coro, primeiro, e das outras, depois. Felizmente, na casa onde nasci e na que se lhe seguiu, havia livros e jornais e um rádio (televisão só muitos anos depois): livros suficientes para me despertar a curiosidade pela ficção e pela tecelagem das palavras; jornais ao ritmo diário do pão; um aparelho de rádio de onde todos os dias se ouvia o mundo, dentro da lei ou fora dela. A(s) casa(s) era(m) grande(s) e essa largueza minimizava o risco de sintonizar (com cuidado, em todo o caso) a Rádio Moscovo ou a Voz da Liberdade. Audições irregulares, ainda assim: a sintonia quotidiana era o Rádio Clube, com passagem matinal pela Emissora oficial, «para ver o que eles dizem».

E é deste modo que por volta dos 14, 15 anos (me) chego aos jornais. Já tinha havido um assomo infantil, anos antes, numa página para miúdos do República – presença diária na casa –, e foi para o República que enviei as primeiras prosas juvenis. Percebi cedo que escrever era fio condutor daquilo que queria fazer na vida. Por isso ainda hoje não percebo ao certo porque fui parar à Escola Comercial, mas o certo é que fui e por lá fiz todo o secundário. Fruta da época: nessa altura, aos catraios de doze anos que continuassem a estudar era pedido que optassem pelo ensino técnico ou pelo liceal, sendo este o que poderia dar acesso à Universidade – e esse era um destino difícil de almejar. Então – terão pensado os pais e algo parecido com isso hão-de ter dito ao filho – ser empregado de escritório poderia não ser um bom destino, mas pior seria não ter destino nenhum. E certamente por esta ideia parental lá fui aprender balanços e balancetes, sem grande sucesso.

Depois fez-se Abril. O fim da ditadura foi igualmente o fim da sombra maior que se desenhava no horizonte dos mancebos desse tempo: a guerra de África para onde todos os meses partiam vizinhos, com poucos mais anos do que eu, que muitas vezes não voltavam – ou voltavam: com o corpo pela metade ou encadernados em pinho.

A Liberdade. Vivê-la e apre(e)ndê-la foi o melhor das nossas vidas, e nisso sou de uma geração privilegiada – continuando embora a acreditar que não é em gerações, mas em classes (e em pessoas e, principalmente, em classes de pessoas) que se divide o mundo. Sem saudosismo, mas com ternura e – admito – alguma nostalgia, gosto de recordar esse tempo em que fomos felizes e imortais. Portugal, que era triste e enfadonho, passou a ser uma festa. E a festa foi bonita, então não foi?

(E se querem saber o resto da história mantenham-se por perto: ela vai-se desenrolando por aí.) 

A vida nunca é igual à escrita, por mais que uma queira imitar ou recriar a outra. Mais que não seja porque a primeira acontece independentemente da nossa vontade – por mais racional que seja o nosso modo de estar e de viver – e a segunda se constrói de acordo com métodos e estruturas congruentes – por mais irracional que possa ser/parecer o processo criativo propriamente dito, o momento (mágico, dizem alguns) da fecundação da palavra pela ideia que lhe dá forma.

Por isso o poeta é sempre o fingidor de que falava Pessoa, e isto pode ser dito de todos os poetas de todos os tempos. E se a criatura não reflecte forçosamente a idiossincrasia do criador, não é possível, em absoluto rigor, estabelecer uma relação de causa-efeito entre ambas. Quer dizer: um mau poeta (ou pintor, ou carpinteiro) pode ser uma excelente pessoa, tal como há bons poetas (e pintores, e carpinteiros) que não prestam como gente. Conheço vários em ambos os lados. Ainda assim, diz-me a experiência que os grandes, os mesmo muito bons, esses tendem a ser as duas coisas – bons de escrita (pintura, carpintaria) e de carácter. São raros, pero los hay. Também conheço alguns.

No caso, uma vantagem – ou desvantagem, depende do ponto de vista – estará em sempre ter sido, mais que criador, um recriador (por vezes também recreador, mas isso é outra conversa) de palavras e histórias alheias. Sina de repórter, pois, mas não me queixo. Foi pelos jornais e rádios e televisões que vivi muito do que de melhor me aconteceu. E de pior também, mas a vida é assim. Fora das redacções: os livros, outras escritas, algumas canções, causas avulsas, novos caminhos na sociedade em rede. Experiências soltas, aqui e ali, umas certas, outras nem tanto, amores, desamores. O balanço, no que houver para balancear, não é para fazer agora.

Por mim, e para já, o rating é apesar de tudo satisfatório.
Do que vier a seguir, a seguir se falará. Se houver alguma coisa para contar. E se me apetecer fazê-lo.

Lisboa, 27 de Março de 2018