Um desassossego na mansidão

Um desassossego na mansidão
Apresentação de António Macedo

Aqui há quase 50 anos, em 1968, fui forçado – forçado, sim!, embora alegremente forçado – a fazer uma Conferência cujo tema era a Chatice.
Explico: isto passava-se em Coimbra, eu era caloiro e recebera a intimação da parte de uns veteranos repúblicos da Prá Quis Tão em cumprimento da parte da praxe que eu aceitava e a que correspondia (Havia a outra, a que lamentavelmente ainda existe e que eu sempre execrei e execro).

A função foi marcada para uma terça feira depois do jantar (necessariamente bem comido e muito melhor bebido) nas instalações da referida República. Não sei quantas pessoas se juntaram para me ouvir, aos meus olhos uma multidão, mas seguramente umas 30 ou 40, 20 das quais tinham, aliás, partilhado do opíparo jantar: carapaus e bifes com ovo, casqueiro e tinto de agricultor servido em garrafões de 5 litros (e digo garrafões porque foi despejado mais do que um). Para inspirar um conferencista que tinha de falar às massas sobre a Chatice o aperitivo não podia ser mais adequado.

O objectivo era o de punir o caloiro com o pagamento a todos os circunstantes de uma rodada de vinho; prémio, uma refeição mensal completa (Sopa e dois pratos, casqueiro e tinto à descrição) até ao final do ano académico nas instalações da República, em dia à escolha excepto sábado. Se não estivesse diante de pessoas muito respeitáveis, até era capaz de confessar que apanhei o meu pifito mensal, metódica e alegremente; e que fiz dois ou três Amigos para a vida (um deles, completou ontem mesmo 71 anos de idade e faço votos que por cá fique ainda muitos e bons; é o Toni, do Benfica); e que chumbei o ano.

Portanto, já perceberam que passei na prova da praxe. Ao fim de cinco minutos, a Conferência tinha sido dada por concluída. Foi o escasso tempo necessário para a sala se ir esvaziando a ponto de apenas ter ficado o veterano veteranorum que deu por finda a função com um estridente aplauso e um estrepitoso brinde. O meu texto para a Conferência sobre a Chatice era tão chato, mas tão chato mesmo que ninguém aguentou ouvi-lo nem cinco minutos. Ainda bem. Eu pouco mais tinha escrito!

Lembrei-me de vos contar esta história, assim que o Viriato me perguntou se eu apreciaria partilhar com ele a apresentação pública da edição portuguesa de “33 Revoluções”, da Canek Sánchez Guevara que têm agora entre mãos. Ou melhor: a evocação ocorreu-me assim que comecei a ler a novela, a noveleta, o texto, seja o que fôr, escrito pelo Canek. Porque o texto do Canek, garanto-vos, se reduzido à sua expressão mais simples, é, na verdade, um texto sobre a chatice! A chatice que é a vida submetida, a vida cabisbaixa (como lhe chamaria o O’Neill), a vida da obediência e do respeitinho, enfim, a vidinha.

Sucede, porém, que com este texto o Canek, em Coimbra, Inverno de 1968, teria sido inevitável e fulgurantemente praxado. Porque deste texto do Canek não há quem seja capaz de fugir. Mais: este texto do Canek, tanto como é um texto para ser ouvido de pé – e de preferência em sentido – é um texto para ser lido em pé – e de preferência em movimento. É um desassossego na mansidão revoltada que transmite e esse desassossego apodera-se de nós a ponto de não o podermos ler sentados, calma e tranquilamente. É um texto que nos faz fernicoques, um texto que transporta aquele bichinho invisível capaz de provocar urticária na espinha. Mas é, também, um texto de denúncia e de revolta. Um texto desobediente, ou melhor, que vai desobedecendo a ele próprio e que, nesse sentido, se vai transformando a ele próprio naquilo que, porventura, desobedece à sua própria índole pondo mesmo em causa a sua natureza. Uma vertigem. Uma vertigem cada vez e cada vez mais à beira do precipício e que acaba por consumar-se no que consiste, afinal, a sua redenção. Trágica, na verdade, mas redenção!

Isto, a meu ver, no que diz respeito ao conteúdo.

Já no que diz respeito à forma, a “coisa” é, ainda mais ferozmente saborosa – e é também por isso que o Canek, com este texto sobre a Chatice, não sobreviveria à praxe coimbrã em Novembro de 1968. O texto é, como dizer, um texto radiofónico. Um texto com um ritmo próprio, uma cadência, um andamento. Paradoxalmente - e tanto quanto é possível uma coisa assim – o ritmo subjaz relativamente à cadência e ao andamento – e no banal 3 por 4 em que é escrito da primeira à última linha, podemos sobrepor vivaces e molto vivaces que nos surpreendem e inquietam. É, também por isso, que o texto “33 Revoluções” não pode ser lido sentado; é também por isso que eu digo que este texto é um texto radiofónico, com a voz do autor lá dentro, mas também com as nossas vozes lá metidas se for o caso – e é o caso, em verdade! – de nos comprometermos com o que ele é e com o que transporta.

Belíssimo, portanto. E contagiante. E comovente. E tudo.

“33 Revoluções” é do terrível género de “Viró-Disco-E-Toca-O-Mesmo”. Do trabalho na repartição ao sexo com a russa, passando pelo casamento desfeito, pelos copos, pelos convívios, pela dança, pela leitura dos jornais, pela novela na TV e pelos noticiários da Rádio, tudo – mas tudo mesmo! – é burocracia e administrativismo, bom comportamento e obediência. Impera a pasmaceira; a chatice, portanto. Só falta mesmo que as declarações e proclamações sejam concluídas com um auspicioso Reina a Ordem Em Todo O País e com o santificado voto A Bem da Nação.

Cumpre-me dizer, ainda e em jeito de conclusão, que ignoro o facto de ser justa ou injusta a denúncia veemente e clara que este texto do Canek também é. Neste caso concreto, o deste texto, não valorizo esse ponto. Mas não posso deixar de acrescentar que pelo que conheci dele – e não foi muito, em verdade! – e pelo que dele li – e li alguma coisa! – sou forçado (como em Coimbra, mas não alegremente) a suspeitar que a denúncia é infeliz e terrivelmente verdadeira.

Para concluir.

A edição portuguesa de “33 Revoluções” da responsabilidade da jovem e pequena – mas audaz – editora “Ponto de Fuga” faz justiça ao texto (ou melhor, aos textos) que mandou imprimir e confirma o cuidado e o bom gosto com que marcou todos os livros que deu à estampa até agora.
A capa, desde logo. A paginação, depois. O corpo e o tipo de letra. Na gastronomia, é costume dizer-se que os olhos também comem; no tocante aos livros, estou tentado a dizer a mesma coisa. Quem gosta de ler, sabe bem que nada é mais saboroso do que um livro bem apresentado; embora saiba também, que apesar de tudo, é preferível um bom livro mal apresentado do que um mau livro carregado de laçarotes.

E o conteúdo, finalmente.

Este é o meu primeiro livro – e, como calculam, tenho lá em casa pelo menos três! – autografado pelo tradutor. Eu que leio apenas em Português e não nas Línguas originais da escrita, valorizo enormemente a tradução e o dificílimo, aturado, minucioso, sabedor e competente trabalho do tradutor. Infelizmente, nem sempre isso é possível, mas tenho dois ou três tradutoras e tradutores que sigo e que são como que uma marca na ourela das nossas camisas.

Pois bem. O texto que têm entre mãos é uma tradução exemplar. Desde logo porque está redigida em “Português de Lei”; mas também porque é acompanhada de notas informativas sobre palavras e expressões idiomáticas que o tradutor preferiu – e muito bem! – conservar no original. Sucede que a adicionar a este trabalho de artesão da palavra, o tradutor nos brinda com 49 páginas introdutórias em que nos conta quem é Canek Sanchez Guevara e nos contextualiza estas “33 Revoluções” que traduziu superiormente. Razão, suplementar, para aplaudir – como é justo – a edição portuguesa deste texto (e tenho dito sempre ESTE texto porque o Canek é autor de muitos mais, belíssimos todos eles).

Se o desejarem, podem proceder a um desconto a vosso gosto naquilo que acabei de dizer. O tradutor, Viriato Teles, jornalista, repórter, escritor, cidadão muitas vezes inconveniente e nunca acomodado, é meu Camarada, Cúmplice e Amigo do peito há mais de 30 anos com a agravante de ser, também, meu Padrinho de casamento. Portanto, façam lá o desconto que melhor entenderem; mas não descontem nada daquilo que acrescento agora: o leitor português fica a dever-lhe em muito e bastante a edição portuguesa deste texto de Canek Sánchez Guevara. Fui testemunha da persistência, quase da obstinação com que se lançou na empresa de desafiar as editoras portuguesas a arriscar na edição deste livro; sou testemunha da Alegria com que a viu concretizada na “Ponto de Fuga”, do Vladimiro Nunes. Afinal de contas, trata-se do texto de um Amigo que ele prezava como muito poucos sabem prezar (e admirar) os Amigos.

E não há Amigo como um Amigo para partilhar um bom livro, uma leitura superior.
É isso, também, que podemos ler neste livro.
E o livro também é dele, do Viriato.
Obrigado.

Apresentação de 33 Revoluções, de Canek Sánchez Guevara
FNAC Colombo, Lisboa, 15.Out.2017