Beleza e decadência em Lisboa

Beleza e decadência em Lisboa
Crónica de Canek Sánchez Guevara

Adentro-me na cidade, entre ruas pejadas de eléctricos antigos, fachadas cobertas de azulejos e edifícios abandonados. Ao contrário de outras capitais europeias, esta não é cinzenta: são muitos os pigmentos que adornam a cidade (o amarelo foi a cor real; o rosa, a republicana; depois, qualquer outro se tornou válido). No primeiro de Novembro de 1755, dia em que todos os santos abandonaram Lisboa, um terramoto destruiu a cidade. Uma hora mais tarde chegou o tsunami, e a este seguiram-se os incêndios que a assolaram durante uma semana.

Resta pouco da velha capital; umas cem mil pessoas morreram nesses dias, demorou um ano a retirar os escombros. A biblioteca e os arquivos reais desapareceram, apagando-se parte da história. A ironia natural interferiu no curso das ideias; que o terramoto ocorresse numa data especial para os católicos e, portanto, que quase todas as igrejas da cidade tenham ficado danificadas, segundo Adorno, «foi suficiente para curar Voltaire da teodiceia de Leibniz»: Como podemos estar seguros de viver no melhor dos mundos possíveis, se acaba de ser destroçado pela ira de Deus?, perguntavam todos após aquele dia aziago. Nietzsche ainda não tinha nascido para aclarar as coisas…

A beleza de Lisboa é decadente, melancólica, quase metafísica. Às vezes faz-me lembrar um quadro de De Chirico. Não é uma cidade triste, ainda que a tristeza habite nela (o fado, a intraduzível saudade) e a pobreza também, aqui, no último canto da Europa Ocidental. Os salários são muito baixos, se comparados com o resto do continente; tão-pouco é, porém, a pobreza latino-americana.

Chego a uma praceta onde uma trintena de homens se dedica ao extenuante labor de fazer nada. São todos negros, filhos coloniais do antigo império, feitos de dentes brancos e bolsos vazios. Alguns fumam, outros bebem, todos falam ao mesmo tempo. Um entrega-me um papel fotocopiado que anuncia os milagres de um curandeiro africano, capaz de acabar com a inveja, o mau-olhado, a pobreza, a má sorte ao jogo, as tretas do amor, os ciúmes e, como se isto fosse pouco, diz, também cura a impotência. Rio-me, ainda que não lhe ache graça. É um acto reflexo. Cinismo crónico. Terá cura para ele, também?

Dou a volta numa esquina. Vejo-a à distância, caminho para ela. Veste de negro e umas bolas de fogo dançam a seu lado, ao ritmo das aspas que são os seus braços. Aproximo-me e a gasolina golpeia-me o nariz. Ainda não é de noite, mesmo se o sol já iniciou a retirada; o céu, antes celeste é agora profundo, quase infernal. Conforme avanço dou-me conta de que os movimentos dela são torpes, mais próprios de tropeções que do ballet. Quando chego a seu lado, olha-me com olhos fundos, os mais belos da cidade. Pede uma moedinha e inclino-me para entregar-lha; então, por trás do combustível intuo (creio intuir?) o odor acre da heroína. Conheço aquela pele desidratada, aqueles ossos do rosto agudos, quase agressivos, que nascem como montanhas. Já vi antes aquele olhar, entre ansioso e perdido, e sempre orgulhoso. Cravo os meus olhos nos seus e por um instante fico fascinado. Apenas meio segundo; depois, com aquele desconcerto que só uma punk é capaz de exibir, agradece-me: «Obrigada», diz, e continua a brincar com o fogo.

Apaixona-me o idioma. Poucas coisas me seduzem tanto como procurar semelhanças e diferenças entre línguas distintas. A comer, descubro que ao perejil se chama «salsa», e à salsa «molho». Comento que em nauatle1 se chamava molli, ou mulli, e que agora, castelhanizado, se diz mole. Desvairamos, sempre à mesa, sobre o hipotético encontro entre lusos e aztecas, única forma de entender porque é que em Portugal se utiliza um termo tão estranho para um preparado que em quase todas as línguas ocidentais se pronuncia a partir do latim. Menção à parte merece a palavra «puto», que aqui é a forma carinhosa para falar de uma criança (ainda que «puta» seja puta, como em toda a parte).

Diluvia. De um dia para o outro, o sol exilou-se, deixando apenas frio e chuva incessante. Caminho embutido num abrigo que faz o que pode para conter a água, cortar o vento e manter o meu corpo a uma temperatura razoável. Peço-lhe demasiado. Refugio-me num café. Cá fora, debaixo de um toldo, há uma estátua de Pessoa sentado a uma mesa, também de bronze. De tamanho natural, põe-me nervoso; pergunto-me se é Pessoa «em pessoa» ou se se trata de algum dos seus heterónimos. Afinal de contas, em que se diferenciam uma estátua «dele» e uma de Ricardo Reis ou de Álvaro de Campos?

In "33 Revoluções", de Canek Sánchez Guevara
Tradução, introdução e notas de Viriato Teles
Edição Ponto de Fuga, 2017