O meu amigo Fausto

O meu amigo Fausto

Não é o Elvis Presley nem o Tommy Steel, já teve um cão que voava por impulso mictório, e agora dá guarida a Sócrates, um papagaio filósofo carregado de dúvidas metódicas e muito mais sabedoria do que a generalidade dos cronistas políticos e sociais. Chama-se Fausto Bordalo Dias e é um nome de referência (hoje diz-se incontornável, mas eu sou de outra escola) da música popular portuguesa.

Conheci-o já lá vão vinte e muitos anos, creio que pela mão de Zeca Afonso. Por essa altura, andava o Fausto a congeminar um disco que haveria de tornar-se um marco fundamental da cultura lusitana. Chamou-lhe Por Este Rio Acima e só quem já então tinha o sonotone irremediavelmente avariado é que não viu que esse era o prenúncio de uma nova era para a música portuguesa.

Depois vieram outros. À evocação do passado – primeiro passo de uma trilogia continuada, doze anos depois, com Crónicas da Terra Ardente, e que há-de ter o seu epílogo daqui por uns tempos em mais um disco que não é difícil imaginar tão magistral como os anteriores – seguiu-se a reflexão sobre o presente em O Despertar dos Alquimistas, o reencontro com a matriz europeia em Para Além das Cordilheiras, a memória da infância africana em A Preto e Branco.

No percurso de Fausto houve ainda tempo para revisitar velhas canções em Atrás dos Tempos Vêm Tempos e para registar momentos únicos ao vivo em Grande, Grande é a Viagem. E, mais recentemente, voltou a surpreender tudo e todos com A Ópera Mágica do Cantor Maldito, um poema sinfónico a várias vozes por onde passam histórias recentes, realidades incómodas, afectos e desafectos. É este disco que serve de base ao concerto que poderemos ver este fim-de-semana no Centro Cultural de Belém, e oito dias depois no Coliseu do Porto.

Será, decerto, um momento único para rever a arte superior deste compositor e intérprete a quem muitos não perdoam o talento, a honestidade intelectual e humana, a frontalidade. É sempre assim nos tempos e nos lugares em que a mediocridade e a pequenez dos espíritos ditam as regras. Mas não é disso que quero falar aqui e agora.

O Fausto, o meu amigo Fausto, é desde há mais de três décadas não apenas o homem íntegro e o artista exemplar que todos conhecem, mas também um cidadão particularmente atento às coisas simples da vida e às realidades que nem sempre se percebem imediatamente. No desconchavo do mundo actual, ele é uma voz crítica e particularmente lúcida – e por isso sobremaneira incómoda para os poderes de ocasião e os lacaios de serviço.

Lembro-me das conversas que tivemos quando Gorbatchov fazia de aprendiz de feiticeiro, e das opiniões que trocámos quando os antigos libertadores africanos se transformaram nos cleptocratas mais hediondos do tempo actual. Fausto nunca partilhou do autismo de muito boa gente da sua geração, para quem ser de esquerda implicava silenciar os dislates e os crimes cometidos em nome de um futuro melhor. E, também isto, há quem não lhe perdoe. Mas é precisamente por isto que conquistou o respeito e a admiração dos homens e mulheres que prezam a verdade e a justiça.

Por ser assim é que a nossa amizade se mantém e aprofunda a cada dia que passa. Para desespero dos que nos impedem a caminhada – como diz Ovídio Martins, um dos seus poetas da juventude – teimosamente continuamos de pé. Porque ainda há coisas que valem a pena, porque há quem não se venda nem se renda, por muito sedutor que seja o brilho das glórias efémeras. O Fausto, o meu amigo Fausto, é um desses.

A Capital | 27.Mai.2005